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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Para meu amigo Mário

Para começo de conversa, se este texto lhe parecer confessional ou piegas demais, largue-o assim que sentir isso.

Estou escrevendo essa história para fazer saber quantos queiram saber, e tentar, de alguma forma, exorcizar um pequeno fantasma que existe em mim.

Este texto é sobre uma pessoa morta. Mas que continua muito viva. Ela não era imortal. Mas eterna. O que são duas coisas diferentes.

O ano é 1995. Eu tinha 16 anos de vida e estava prestes a me formar no Ensino Médio. Normalmente, turmas de formandos fazem festas e diversas outras atividades para angariar fundos para sua formatura. No nosso caso, naquele ano, tínhamos uma barraca de comidas típicas de festa junina numa festa que ocorria na rodoviária da cidade. Naqueles tempos, nos anos 90, essas festas – que em alguns lugares são chamadas de quermesses, enchiam porque não acontecia muita coisa na cidade pequena. No caso, a cidade é Nilópolis, no Rio de Janeiro.

Na barraca da turma, deveria haver um rodízio, uma escala de pessoas que seriam responsáveis pela barraca, pelas comidas, pelas bebidas e pelo dinheiro. Se hoje em dia isso já é muita responsabilidade para mim, imagine com 16 anos. Mas o destino quis que eu fosse um dos primeiros na escala. Assim, antes que a festa enchesse e o movimento aumentasse eu estaria livre da responsabilidade. Mas nem todo mundo cumpre com suas tarefas e quis o destino que a pessoa que me renderia se atrasasse. E acabei ficando na barraca e vendo o movimento aumentar. De maneira que duas pessoas que ficassem na barraca não poderiam atender muito bem o público.

Assim que as próximas pessoas chegaram, 15 ou 20 minutos antes do seu horário, eu e a outra pessoa que estava comigo, saltamos daquele barco sem se importar muito com quem estivesse chegando ainda sem entender como era o funcionamento da barraca.

Pois bem, aqui começa a história que eu quero contar.

No momento em que consegui me livrar daquela tarefa chata, no palco da festa começava a passagem de som da primeira banda que “alegraria” a noite da rapaziada. Quem já teve o desprazer de estar numa passagem de som, principalmente quando o público está presente, sabe o tédio que é. Aquele festival de “alô som”, “S, S, Som”, “1, 2, 3, testando”, “S, S, Som!” é um porre! Enquanto essa pasmaceira rolava, notei um sujeito careca e de óculos redondos à la John Lennon. Ele instruía uma baterista nervosa e ansiosa, que deveria estar tocando para o seu primeiro grande público. Deu tempo de eu pegar uma pegar bebida e quando sorveria o primeiro gole, saiu dos autofalantes os primeiros acordes de uma grande mudança na minha vida: a música “In Bloom” do Nirvana.

Imediatamente eu fiquei mesmerizado. Até então, eu só conhecia dois ou três caboclos que conheciam Nirvana. Eu já era o “roqueiro maluco” da minha área. E jamais imaginei que numa quermesse alguém poderia tocar a música que me fez prestar atenção no Nirvana.

Eu não me lembro mais nada daquela noite. Mas guardei bem a cara do sujeito que tocava e cantava. Numa cidade de 9 km quadrados, você sempre esbarra com alguém que você já viu antes.

Onze anos se passaram.

Eu já estava formado e comecei a dar aulas num colégio público em Nilópolis. Certo dia, no turno da noite, ao entrar na sala dos professores, - lugar pouco frequentado por mim, encontrei aquele sujeito que tocou na rodoviária. Não podia acreditar. De certa forma, ele era quase um herói da minha juventude. Obviamente, eu não falei com ele de imediato. Eu sou tímido e tenho Horror de gente “paga pau”.

Alguns meses se passaram até que eu tivesse coragem de me apresentar. Quando esse dia chegou, eu conheci um dos caras mais fantásticos, inteligente e engraçados que a vida já colocou no meu caminho. Seu nome: Mário.

Contei a ele a história acima narrada. Ele com uma voz tranquila disse que nunca tinha conhecido ninguém que estivesse naquele show. Em 1995, ninguém conhecia a banda New Wave Hookers (Dê um Google, dá para achar coisas deles por aí). Em 2006, eles eram cult no underground carioca.

Também lhe disse que era músico e que estava descontente com os rumos que a banda que eu tinha estava tomando. De imediato ele falou “então vamos tocar só nós dois! Tô a fim de fazer umas coisas diferentes e suas ideias vem bem a calhar!”.

Daquele momento em diante, fizemos um duo musical que ele chamava de Peixe Solúvel. Minhas tardes e noites de sábado eram na casa dele. Criando música. Éramos dois guitarristas. Mas a criatividade do Mário era algo que não conheci em muitos músicos. Rodávamos samplers de bateria e outras coisas, em laptops que tinham 516 megabytes de memória. Ficávamos os dois compondo, ao vivo, cada ideia que nos vinha à mente. Para mim, o jogo era fácil: Mário tinha muito mais background que eu. Muito mais letras e músicas compostas que eu. Ele foi o único cara que conheci e toquei, que digo que escrevia melhor que eu. Muito melhor.

Eu tinha muitas ideias. Ele também. Eu queria, de todo coração, fazer de tudo para que aquilo que tocávamos, muitas músicas dele, algumas minhas, chegasse ao maior número de ouvidos. Mas nós éramos de gerações diferentes. Ele era 7 anos mais velho que eu. Ele gostava de fazer as coisas com calma. Como um ourives ou joalheiro, que sabe desbastar e polir cada peça em que trabalha. Queria deixar cada música do seu jeito. Tanto que inúmeras músicas, tem inúmeras versões, uma para cada formação de banda com quem ele tocou. Um dia, eu me enchi de fazer as coisas no tempo dele. Também me mudei de cidade e passamos a nos ver menos. Mas sempre nos falávamos. Sempre. Isso sempre foi algo bom na nossa relação: eu nunca consegui ficar chateado com ele.

Entre idas e vindas, toquei com ele até 2010. Mais precisamente 11 de setembro de 2010. Mário carinhosamente me chamava de “pedreiro do rock”. Por muitos anos, antes de ter um pedal board, carreguei os pedais da guitarra dentro de caixas de ferramentas. Para ensaiar em estúdio, ele carregava uma porrada de coisas. Nesse dia, fizemos um ensaio com três guitarristas. Cada um se revesando no contrabaixo. Ele estava feliz. Eu mais ainda. Depois de muito tempo sem tocar juntos, a afinação e o timming entre nós não havia mudado e continuávamos sinérgicos.

Voltei pra casa feliz. Muito feliz. Minha mulher nunca havia apoiado tanto uma banda minha, quanto apoiava o que eu fazia com o Mário.

Uma semana se passou e não consegui ligar para ele, para marcarmos o próximo ensaio.

Outra semana. Mais uma. Um Mês. Dois.

Telefone chamava e ele não atendia. Mensagens e recados no Facebook. E nada.

O tempo foi passando sem eu entender o que havia se passado para ele nunca mais ter entrado em contato comigo.

Precisamente no dia 6 de março de 2011, deixei um último recado no Facebook dele. Na esperança de ter uma resposta. Só obtive uma resposta no dia 12 de maio daquele ano, data de aniversário dele. Mas não foi o Mário que me respondeu, mas um sujeito chamado Rodrigo Sabatinelli. Me mandou uma mensagem me informando que Mário havia morrido.

A primeira reação foi ficar gritando “O que? O que? O que?”. Minha mulher que estava se preparando para ir trabalhar, ficou atônita me perguntando o que havia ocorrido e eu só ficava repetindo “como assim? Como assim?”.

Ele me contou que Mário havia morrido no ano passado. De um mal súbito. Aparentemente, comendo um sanduíche em casa, assistindo a um filme com a namorada. Ele nunca foi atleta. Não bebia. Não fumava. Tinha uma vida frugal. Não tinha hábitos perigosos como os meus. Não andava de moto, por exemplo. Mário se arriscava muito pouco.

Na época eu não sabia mexer no Facebook como sei hoje, nem o Facebook tinha os recursos que tem hoje. Assim, ao longo dos anos fui descobrindo que ele morreu exatamente no sábado seguinte ao nosso último ensaio. Naquele dia, não quis ensaiar: estava com preguiça. Ficou em casa. Enquanto via um filme, ao lado da namorada, teve um ataque do coração e não chegou vivo ao hospital.

Durante muito tempo sofri. Sofria em pensar o quanto o mundo perdeu em não conhecer o que o Mário escrevia e tocava. Poucas pessoas tiveram acesso à sua produção. Mas muita gente conheceu quem ele era. Hoje em dia, sofro menos. A gente vai aprendendo a acalmar o coração e sentir menos saudades. Mas minha playlist no celular, tem algumas das músicas que mais me tocavam. Várias letras são compostas de ironias torpes sobre ele mesmo. Quem o conheceu sabia do seu humor negro involuntário, de inteligência extraordinária.

Hoje chegou o dia em que eu gostaria de fazer a homenagem que nunca fiz. Mas também botar pra fora o que sempre senti.

Na internet, existem poucas coisas do que ele fez. Aqui, são algumas coisas que fizemos e que ele fez com outras pessoas. A faixa 3 é muito doída pra mim. Preste atenção na letra.

Mas esse post merece terminar com a música que eu demorei certo tempo para entender todas as motivações dela. Hoje entendo.

Obrigado Mário.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Viva à Mediocridade (Parte 1)


Todo mundo. Eu, você, qualquer um. Todos já tivemos oportunidade de sermos medíocres. Todos nós já fomos medíocres durante um bom tempo da nossa vida. É uma mancha que todos carregamos. São duas as coisas que diferem humanos de idiotas: 1) A capacidade de reconhecer-se medíocre em algum momento da vida; 2) A capacidade de deixar de ser medíocre.

Mediocridade
 substantivo feminino

1. qualidade, estado ou condição do que é medíocre; mediocrismo.
2. situação, posição mediana, entre a opulência e a pobreza; modéstia.
3. pej. insuficiência de qualidade, valor, mérito; pobreza, banalidade, pequenez
4.p.us. justa medida; moderação.
5.p.met. pessoa ou conjunto de pessoas sem talento, medíocres; mediocreira.

Penso que poderia despender horas e diversos textos por aqui para falar sobre esse assunto, afinal, estamos cercados de pessoas medíocres. E muitas delas, ou não sabem que o são, ou não estão nem aí para tal condição.

Você pode me perguntar: “Por que você se preocupa com pessoas medíocres?”. A expressão exata não é me preocupar, talvez o verbo a ser utilizado seja “temer”, (nenhuma piada com o atual presidente do Brasil). Eu temo que os medíocres tomem conta do mundo. Sim! Eles podem! Exatamente porque alguém disse à eles que podem fazer isso.

Quando observamos o quinto significado atribuído à mediocridade, “pessoa ou conjunto de pessoas sem talento”, já dou a pista do que quero dizer. Pessoas sem talento ganham, a cada dia, mais espaço em diversos setores da sociedade. Não importa onde, eles estão lá. São professores (e o magistério está cheio deles), advogados, políticos, músicos, artistas, e a lista poderia não ter fim. 

Mas, ao contrário do que você possa estar imaginando, o medíocre é um sujeito, em geral, competente. Em alguns casos, até demais. O medíocre sabe o que tem de fazer, e o faz. Em alguns casos, ele treinou a vida inteira para fazer o que faz, por isso é tão bom naquilo que executa. E, entenda, isso não é um problema, muito pelo contrário; o mundo só continua girando porque existem medíocres fazendo seu trabalho/tarefa da maneira correta. Medíocre.

O caldo começa a engrossar quando percebemos que o mundo não é, não foi, nem nunca será mudado pelas mãos de uma pessoa medíocre. 

São os espíritos livres, que não se conformam com esse ou aquele estado de coisas, que fazem as coisas andarem em outras direções, em outras velocidades, de outra forma. Pessoas criativas, é uma alcunha muito simples para denominar quem pode e vai além daquilo que está planejado, agendado, organizado. Se existem mais de sete bilhões de seres diferentes ao redor do mundo, por que as coisas deveriam ser padronizadas e organizadas dessa ou daquela forma? O medíocre gosta da forma, seja ela qual for, pois ele consegue acomodar-se dentro dela. Jamais fora. Ele entende que a forma, o limite, a regra, são necessários, pois sem eles, tudo se torna caos. E como alguém pode viver em meio ao caos? Como conseguir encontrar sentido quando tudo e todos andam, cada um, à sua maneira, em qualquer direção? Resposta? O medíocre tolhe, vulgariza, ridiculariza e deturpa tudo e todos que não estão dentro de uma forma. E como medíocres existem em maior número (sabe-se lá porquê), o mundo, aos poucos, adapta-se ao seu gosto, à sua visão de mundo, à sua pouca clareza de raciocínio, aos seus limites.

Eu posso, poderia, citar diversos eventos e indivíduos que corroboram a minha visão. Mas, nesse momento quero que você faça alguns minutos de reflexão para analisar, à sua volta, onde a mediocridade está presente. Para te ajudar nessa tarefa, vou te deixar escutando uma música que você vai entender o motivo dela estar aqui depois.



Essa belíssima composição é de autoria do magnífico Wolfgang Amadeus Mozart. Este genial compositor clássico, foi um menino prodígio que, aos cinco anos, já encantava plateias que adoravam ver um menino ser explorado por um pai em busca de algo que não tivera: prestígio e reconhecimento.

Sendo assim, quero reforçar meus argumentos anteriores com histórias ficcionais, que nos ajudam, em virtude de toda uma preparação dramática e artística, a entender melhor o mundo a nossa volta. Em 1984, Milos Forman filma Amadeus, uma peça de ficção com elementos da vida do próprio Mozart. Entre esses elementos, está a sua relação com Antonio Salieri, compositor da corte do Imperador José II. Que vê o talento, a criatividade e a irreverência de Mozart ganhar cada vez mais destaque sobre a sua figura. 

Na passagem, da ficção, temos uma prova de como um personagem/pessoa medíocre se sente quando está diante de alguém realmente livre e criativo:


 Esse é só o primeiro exemplo. Muito existem e muitos virão no desenrolar dessa ideia que aqui escrevo. Mas o primeiro ponto que quero abordar está justamente no fato de que Salieri não era um mal músico, era competente, funcionário público, satisfeito, acredita que Deus o abençoou com o dom da música. Levar uma vida segura não é um problema. O problema está quando ele é confrontado com alguém que pode elevar essa vida a outros patamares. Como Mozart o faz no filme. E até fez um pouco em vida real. O problema é não conseguir entender que pardais, pombas e bem-te-vis voam, assim como águias, condores e gaivotas. Todos são pássaros. Todos voam. Mas nem todo voo é igual. Medíocres não conseguem entender isso. Olham outros pássaros voando mais alto que eles e pensam em como a vida é injusta, por nem todos voarem da mesma forma. E quando medíocres possuem alguma forma de poder, procuram fazer com que águias e condores voem na altura que lhes convém. 

Este texto continua...

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Pod Cast Barulho do Daesse 23/09

Após um bom tempo e um longo e tenebroso inverno, cá estamos nós fazendo um podcast!

Acho que agora encontrei uma forma definitiva de fazer esse troço! Menos chata para mim e menos penosa para quem já estava acostumado a ouvir os antigos programas!

Dessa vez eu vou falar mais e enrolar menos. E vamos discutir temas relevantes para mim. Se você quiser mandar uma sugestão para mim, sobre outros temas ou pautas para discussão é só mandar e-mail para barulhododaesse@gmail.com.

Inté!


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O Absurdo e seu “Local de Fala”


Confesso a vocês que, não sei em quantos outros textos esse tema irá se desmembrar. Mas o fato é que, por causa das pesquisas que fui fazer para escrever tão somente esse “textículo”, me deparei com tanta coisa, que vai ser irresistível não escrever mais.

Pois bem, vamos pelo início. Segundo o Dicionário Online de Português, Absurdo quer dizer “Contrário à razão, ao senso comum: intenções absurdas. Que fala ou age de maneira irracional; estúpido, disparatado, tolo.”. Na minha modesta opinião, em concordância com o que afirma Zigmunt Bauman, “As relações humanas não são mais espaços de certeza, tranquilidade e conforto espiritual. Em vez disso, transformaram-se numa fonte prolífica de ansiedade. Em lugar de oferecerem o ambicionado repouso, prometem uma ansiedade perpétua e uma vida em estado de alerta. Os sinais de aflição nunca vão parar de piscar, os toques de alarme nunca vão parar de soar.”. Dito isto, explico-lhes como a ideia deste texto começou.

Na semana passada, caí na besteira de fazer um comentário numa determinada postagem de uma página de "humor no Facebook. a postagem é essa da imagem abaixo.



Entrei no link para ver do que se tratava. Veja aqui.

Depois de assistir ao tal do trailer, escrevi um comentário e o que se seguiu, foi algo que jamais havia acontecido comigo:


Jamais imaginei que uma coisa dessas viraria um troço de agressão. Com nêgo falando que eu não era nada por causa da minha foto de perfil (!!!???). E foi por causa desse evento – e de outros que pretendo relatar em próximos posts – que me dei conta de uma série de coisas sobre a internet e, principalmente, sobre o Facebook.

Não desejo para ninguém ser alvo de ataques virtuais. Do mais simples como foi o meu caso, àqueles que causam o suicídio de alguém, como uma injúria, como um vídeo de intimidade sexual, etc. Eu pirava a cada nova notificação de resposta ao que escrevi. Não que estivesse me incomodando, mas eu não acreditava em como as pessoas estavam nervosas e incomodadas pelo fato de alguém ter contrariado aquilo que elas sentiam. Pode-se dizer um monte de coisas sobre as pessoas na internet, mas eu já entendi que cada pessoa atrás de um monitor e um teclado, ou smarphone, está como uma faca nos dentes, uma pistola carregada e uma raiva gigantesca apontada para qualquer um que contrariá-la no que quer que seja.

Dito isso, elaborei o titulo dessa postagem e acabei me apropriando de um conceito formulado por Michel Foucault e que se tornou queridinho pelas militâncias sociais que atuam na internet, em especial no Facebook: O chamado “Local de Fala”. Me deparei com coisas que não imaginava ler, como isso aqui. Teve gente que tentava colocar as coisas de forma didática como essa aqui. E ainda tem aqueles que se esforçam por tentar deixar as coisas no campo teórico. No fim, a que conclusão cheguei afinal?

Com toda a sinceridade? Nenhuma. Na verdade, descobri que eu sou uma besta e que minha vida, tal como a vivo agora, não dá conta de abarcar a balbúrdia em que vivemos. Você pode até me chamar de simplista ou de alienado (no real sentido da palavra), mas o fato é de que eu tive que me sentar e tentar entender qual seria minha posição diante disso tudo.

Entendam: eu sou professor, sou historiador, tenho obrigação de entender o presente para poder contar às gerações futuras o que se passou por aqui. No entanto, vivendo uma vida afastada de grandes centros urbanos, meu maior contato com a realidade das pessoas é quando estou auxiliando um aluno na minha sala de atendimento, ou quando vejo as coisas que as pessoas fazem na internet. E todos sabemos que a vida real não é essa da internet! Mas as pessoas insistem em viver sua vida ali, em meio às fotos de belezas estonteantes do Instagram, às maravilhas culinárias que são postadas em fotos antes mesmo de serem comidas, aos vídeos de gente falando de tudo e de todos no Youtube. Para a imensa maioria das pessoas a vida virtual é mais importante e se sobrepõe à própria vida real. Vejo as pessoas assumirem uma persona virtual e se esforçarem ao máximo para que essa persona seja real na vida cotidiana.

Na minha opinião, a vida que se expõe na internet é um absurdo. E tal absurdo pode e deve se manifestar nas redes sociais, pois é lá o seu local de fala. E só pode se manifestar quem tem uma vida absurda, quem não tem, deve sujeitar-se ao que os outros têm para falar. Afinal, você não sabe o que é ser absurdo, muito menos viver uma vida absurda.


(Continua...)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

AS COISAS MUDAM


Sim, meus amigos! Depois de um longo e tenebroso inverno, estou de volta!

Váááááárias coisas aconteceram comigo e com a minha vida desde a última postagem nesse bendito Blog. Na minha opinião, nada mais natural. Afinal, somos humanos e nossa tendência é evoluir. Se não evoluímos, pelos menos tínhamos que nos dar ao trabalho de mudar alguma coisa nessa nossa vida tão curta.

Pois bem... Tudo vinha acontecendo de maneira maravilhosa na minha vida, até dezembro de 2015. A crise econômica do Brasil cobrou seu preço de mim. Fui demitido de uma excelente empresa, onde ganhava muito bem e em decorrência disso, meu padrão de vida decaiu de maneira vertiginosa. Minha mulher disse: “É agora, ou nunca!”. E decidimos pelo agora. Decidimos mudar nossa vida radicalmente.

Desde Janeiro de 2016, eu moro num sítio, numa zona afastada das grandes cidades, num lugar pouco conhecido dentro do estado do Rio de Janeiro. E desde então, minha vida mudou..., obviamente.


No entanto, não pense que quando digo que ela mudou, que ela tenha mudado para melhor ou para pior. Não. Ela é diferente. Muito diferente. Hoje eu trabalho em casa, ganho meu dinheiro com aquilo que produzo aqui dentro. Hoje o barulho que mais me incomoda é o latido dos meus cachorros quando eles vem um cavalo passando em frente ao portão de casa. (Por alguma razão, eles detestam cavalos). No momento em que escrevo essas linhas, só escuto os barulhos dos grilos. Quando ouço o barulho de um carro ou veículo motorizado, é porque “está passando na sua rua o Carro do Pão!”. Sim, a padaria mais próxima fica a mais de 5km de distância.

Muita gente “urbanoide”, como já fui um dia, se espanta por me encontrar nesse lugar. Minha própria mãe, que já é uma senhora de idade, reclama quando vem aqui em casa. Reclama que não tem muito o que fazer e que ela chega a ficar entediada.

Se você está lendo isso, é porque sim, aqui tem internet. Não tem 5 mega de velocidade, mas consegui passar 5 meses da minha vida sem ela. (só tinha a internet do celular pré-pago, que, convenhamos, não dá para fazer a metade das coisas que eu faço). Mas dá para assistir à Netflix. Dá para ver e enviar vídeos para o YouTube. O Spotify  ainda não reclamou. E eu continuo vendo as fotos felizes que todos postam no Facebook.

Em oito meses eu consegui emagrecer um pouco. Acho que perdi uns 3kg. Aprendi como tratar, limpar e manter uma piscina. Aprendi a cortar e cuidar de um gramado. Comecei a plantar uns legumes e ervas. O refrigerante é algo que quase não entra mais aqui em casa. Tem sempre muito suco de acerola. Água de coco é um negócio tão abundante, que me dou o luxo de fazer pedrinhas de gelo para tomar com um uísque que ganhei num casamento há dois anos. (Sim. O uísque dura esse tempo todo aqui em casa).

Minha cachorrinha que tinha uns 15 ou 17 anos, resolveu descansar por aqui. Ela fez brotar um pé de mamonas, que as crianças de hoje em dia pensam que é o nome de uma banda. Chegaram mais dois cachorros para fazer companhia ao Larsson, que já vai fazer 5 anos nessa família. Eles correm muito pelo terreno e conseguem ficar gordos, não me pergunte como. Larsson não fica mais nervoso quando escuta alguém se aproximando da minha casa, nem quando escuta barulho de fogos de artifício.

Em algumas semanas, eu consigo ler até três livros. Sim, eu tenho tempo para ler três livros, consecutivamente. Meus vizinhos não reclamam mais do volume em que escuto minha música. A maior preocupação deles é consertar seus galinheiros para que suas galinhas não entrem no meu quintal e sejam almoço dos meus cães. Eles me cumprimentam todas as vezes que me vem no portão; até quem não me conhece, e eu não conheço, me cumprimenta e eu cumprimento de volta.

Depois de mais de vinte anos, redescobri o que é o inverno. Aquela estação onde de noite faz um frio danado, e no dia seguinte você procura aquele sozinho fraco para se aquecer. Onde você se embola num cobertor com a pessoa que ama, e passa horas vendo filmes, séries ou qualquer besteira na televisão. Um aquece o outro.

Na padaria, no depósito de bebidas, na peixaria, na lojinha de “Xing Ling”, no mercadinho, na loja de ração, no buteco, ou no restaurante mais frequentado, as pessoas sabem quem eu sou. E sabem quem é minha mulher. Quando não estou com ela, as pessoas mandam abraços e beijos para ela. Se sabem que ela está doente, querem vir aqui em casa para ver como ela está. Quem sabe que ela chega do trabalho na sexta, depois das dez da noite, depois de encarar um puta trânsito para chegar em casa, perguntam se ela quer o restinho da janta que fizeram naquela noite.

Enfim, ninguém precisa passar pelo que passei no último trimestre do ano passado. Ninguém precisa ser demitido sem entender o motivo. Ninguém precisa perder nada. Mas acredito que todos, sem exceção podem mudar. Todos, em algum momento precisam que algo seja feito diferente. Que a rotina transcorra de maneira diferente. Que as relações sejam diferentes. Que a vida não seja só uma linha reta em direção ao fim. A linha da vida pode fazer curvas, espirais, declives, aclives, “loops”. A linha da vida não regride, ela só avança. Cabe a cada um de nós, fazer com que essa linha faça traçados diferentes. As mudanças precisam acontecer, se elas serão melhores ou piores, depende de como cada um desenha sua linha da vida. Mas acredito que ela pode sim, ser diferente sempre.


Inté.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Meu Canal no YouTube

Pra quem acompanha essa bagaça, já deve saber que eu gosto pra caralho de acampar.

Pra quem não sabe, aqui fica a ideia: eu acampo e recomendo pra qualquer um que queira relaxar, curtir a natureza e viajar para lugares fantásticos.

Eu tenho um canal no YouTube, junto com a minha mulher, onde mostramos onde acampamos e as coisas que a gente faz quando acampa.

Dá uma olhada nesse vídeo e, se quiser, dá uma olhada nos outros.

Inté!



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

BANDIDO BOM, É BANDIDO MORTO?

Vi esse texto circulando pela internet e não resisti, tive que publicar aqui. Só peço que entendam direitinho, disposições em contrário podem ser discutidas com argumentos válidos. Leiam:

SOBRE A "PESQUISA DE OPINIÃO" QUE ESTÁ SENDO PUBLICADA HOJE NA MÍDIA COMERCIAL...


"Jesus passou a vida arrumando treta por questões sociais. Defendeu assassino, ladrão, puta, pobre e leproso.

Juntou uma galera pra defender a causa. Começou a fazer barulho. Conquistou o desafeto da classe média e da elite (ponto pro cara).

Considerado subversivo, foi preso pelo Império.

A classe média pedia pena de morte, mas o crime não a justificava. Pôncio Pilatos jogou o b.o. pra Herodes. Herodes se ligou na mesma coisa e devolveu o b.o..

Pilatos deixou pra galera decidir. Bem pensado, porque desde aquele tempo, o povo já tava cheio de dateninha linchador.

O cara foi executado ouvindo piadinha de justiceiro.

E não foi morto "entre" bandidos. Foi executado pelo Estado COMO bandido - subversivo, que de fato era.

Enfim, o messias cristão foi um sujeito engajado em questões sociais, executado como bandido pelo Estado sob os aplausos dos justiceiros.

Então, Jesus, se você estiver lendo isso e pensando em voltar, fica esperto.

Essa "gente de bem" de hoje em dia vai te matar de novo enquanto come bacalhau e ovo de Páscoa."

Imagem e texto da guerreira Beatriz Lobato


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Chega de falar do passado!

O passado nos trouxe até aqui. O que somos hoje é fruto do passado que vivemos. Sendo ele bom ou mal, não importa.

O futuro não existe, o futuro ainda há de ser construído.

Logo, resta-nos o presente. Esse sim deve ser vivido com intensidade, com firmeza, com objetividade.

Glorificar o passado é viver de algo que não existe mais. Viver de coisas passadas chega a ser doentio. 

"No meu tempo...", lembra quando a vovó dizia isso e a gente virava os olhinhos e perdia a paciência? Então? 

Deixa a moda, a música, os hábitos, os vícios e princialmente, as ideias do passado para trás. De nada vale dizer que nada será como era antes, porque nada será como antes, mesmo!

Lembra do "Homem do Bumbo", da Praça é Nossa, (para outros tantos, mais antigos, Praça da Alegria)? Lembra do ele dizia no início e no fim do seu quadro? "Tempo bom, não volta mais. Saudade... de outros tempos iguais!"

Tempos iguais? Tempos iguais? Que tal desejarmos o novo? Que tal desejarmos a surpresa de algo que nos toma de assalto e nos deixa em outro estado?

Que tal desapegarmos de conceitos velhos que já não se aplicam nem correspondem mais às nossas expectativas e realidades?

Por que não apontarmos nossas naves para frente e para o alto? Rumo ao desconhecido?

Se queremos tanto ter certezas, que seja pelo menos uma: o amanhã nos reserva um lindo e surpreendente dia.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

ARQUEOLOGIA DA SAUDADE: JORGE CABELEIRA E O DIA EM QUE SEREMOS TODOS INÚTEIS


Longe de mim ser saudosista! Eu vivo pregando a plenos pulmões contra essa onda de dizer que em tal ou tal época as coisas era melhores e tal. Me recuso a entrar nisso.

No entanto, ao começar a escrever essas linhas, percebi que estava incitando o mesmo discurso, só que ao contrário. Ou seja, no momento em que rebusco na minha memória bandas que até hoje escuto, mas que o tempo as levou para bem longe, posso estar fazendo a campanha pela volta de um determinado passado, mas um passado de acordo com a minha visão. Não sei se é isso, mas eu sou ótimo em perceber incoerência no meu discurso e o primeiro a fazer a autocrítica.

De qualquer forma, mais uma vez, mais uma segunda e mais uma vez pelas perambulações que faço no youtube, me lembrei de um famoso, mas quase desconhecido disco que o Zé Ramalho gravou com o Lula Côrtes pelos anos de 1975, chamado Paêbiru. Nesse disco, que é uma viagem alucinante pela psicodelia brasileira, tem uma musiquinha que eu adoro. Essa aqui:


Aí lembrei da banda que nos anos 90, mais precisamente em 1997, surgiu para o cenário nacional com a famosa “Carolina”:


E aí, vários filmes passaram pela minha cabeça, fiz voltas para o tempo de quando eu recebi a fitinha K7 com o primeiro disquinho dos caras, produzido pelo Roberto Frejat. Que tinha aquele frescor de novidade de coisas que foram produzidas nos anos 90 por essa terra Brasilis. O mercado fonográfico e radiofônico estava ávido para ter bandas nacionais tocando. O Raimundos era uma unanimidade. O Chico Science morreria em 2 de fevereiro de 97, e o disco deles foi lançado como uma continuação daquilo que vinha de Recife – eles não eram Mangue Beat – mas o Mundo Livre S/A  e a Nação Zumbi já estavam nos seus segundos discos e a Sony, “dona” da Nação investiu na Jorge Cabeleira como um segundo Trunfo. Mas o primeiro disco foi o que deu.

Em 2001 eles lançaram o excelente “Alugam-se asas para o carnaval” que é a síntese correta de uma banda madura. Mas como o disco foi feito com captação de recursos públicos, o dinheiro só deu para a produção e gravação do disco, na hora da divulgação ele acabou e ficou restrito ao nordeste e chegando devagar no sudeste. Eu mesmo lembro de ter comprado o CD numa dessas liquidações de lojas de discos que estavam fechando. Comprei a bolacha por meros R$3,99.


Em 2014, eles editaram um disco reunindo músicas dos dois primeiros discos e mais duas inéditas. Existe a promessa de um DVD.


Mas, no fim, resta somente a saudade de uma banda que mostrou muito pouco, do muito que poderia, mas o mercado é bruto e te engole se você não sabe fazer as coisas direito. Como foi o caso deles.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Estou ficando velho... Parte 2

Eu já escrevi há pouquíssimo tempo que estou ficando velho. Apesar de estar com 37 anos, já antevejo um futuro doloroso no sentido de ver as coisas se repetindo, tendo que dar sempre as mesmas respostas para as mesmas perguntas. E talvez aí esteja minha principal amargura em ficar velho, e minha principal queixa sobre os demais velhos.

A repetição me cansa. Ver e ouvir as mesmas coisas, depois de um determinado tempo, me dá nos nervos. Tanto é que me dedico cada vez menos ao cinema, por achar que as fórmulas dos filmes mudam muito pouco, só mudam os patrocinadores e o cenário em que a história é contada.

Como a coisa que mais me impulsiona é a música, também não posso suportar ouvir as mesmas coisas. E pior: ouvir as mesmas coisas como se nada melhor tivesse sido feito depois desse ou daquele artista. Recentemente, “relançaram” a música “Exagerado” do Cazuza. A cada vez que ela toca no rádio, me contorço. Não é possível que a carência por um ídolo esteja tão grande que ninguém consiga aceitar o fato de que ele, Renato Russo, Cássia Eller e tantos outros estão mortos!


E talvez essa seja minha maior indignação: a geração que viveu a década de 80, ou que foi jovem/adolescente durante esse período, vive dizendo que nunca mais será feita música boa como naquela época. Pessoas com pouco mais de 40 anos dizendo que a juventude atual só escuta besteira e que música, em especial o rock, de verdade, foi feito durante os anos 80.

Ninguém gosta daquela tia ou daquela vovó chata que vivem a dizer “No meu tempo as coisas eram muito melhores! Era tudo diferente!”. Essa foi a geração que também viu a ditadura obrigar diversos artistas a dar o seu melhor, escrevendo músicas, muitas vezes, complexas, para poder enganar a censura. Nos anos 80, a censura ainda existia, mas o que reinava era o clima de bundalelê, afinal, a ditadura estava nos seus últimos dias.

A música, como qualquer produção cultural, é produto de um tempo. Portanto, está atrelada aos fatos de um determinado momento, ao estado mental das pessoas num determinado instante, num determinado lugar. Se durante os Anos de Chumbo da Ditadura Civil Militar no Brasil, artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso ou Gilberto Gil, tiveram de explorar de todas as formas a sua criatividade para produzir uma música que era combativa e contestadora, pois esse era o espírito de um grupo de pessoas que não se conformava com a situação política do Brasil. Nesse mesmo período, também vigorou a Jovem Guarda que tinha na sua raiz, a juventude e a rebeldia jovem, mas que poucas vezes, ou quase nenhuma, fez algum tipo de contestação ao Regime Militar.


Nos anos 80, o espírito, ou, o estado de espírito da sociedade brasileira, era outro. Vivia-se os estertores de um Regime que marcou nossa sociedade de tal forma, que a juventude daquele tempo, que pouco ou nada teve que combater tal regime, só queria saber da “festa”, ou do rescaldo que a geração anterior havia feito. Na minha opinião, a música feita nesse período não é boa, nem é ruim, é só o produto daquele tempo. Um tempo em que as pessoas passaram a se questionar que tipo de sociedade queriam dali para frente, uma vez que as motivações e os desejos eram outros. Lembrando que estou me referindo somente à música feita no Brasil, sem mencionar os artistas internacionais, que nada tinham a ver com nossa realidade.

A música feita após os anos 80 segue outra linha e outra definição. Principalmente, se pensarmos na música feita a partir dos anos 2000. Os jovens que fazem rock (e nesse momento me atrelo a esse estilo porque é como os velhos se referem “o rock dos anos 80”), são os frutos/filhos dessa geração oitentista, são meninos e meninas que vivem numa democracia, que votam, que não precisam se preocupar se sua música vai ou não ser censurada. Rapidamente falando, se pudermos chamar de “preocupação”, a preocupação dos músicos e “roqueiros” é falar sobre a vida, é fazer graça daquilo que observam no cotidiano, até existe o questionamento, a sublevação contra um certo estado de coisas que poderia ser melhor ou diferente. Mas em sua grande maioria, as músicas falam sobre a existência num mundo farto, num mundo onde se ama mais e onde se comemora e se celebra muito mais.

Portanto, todo esse argumento acima, é apenas um desabafo e uma maneira de dizer para os “tiozões” e “tiazonas” que não existe essa de “No meu tempo as coisas eram muito melhores! Era tudo diferente!”, as coisas, as músicas, são como são, produtos de uma sociedade num determinado tempo, num determinado local. São feitas por pessoas que observam um cotidiano que pode ser melhor ou pior, dependendo do ponto de vista. Ou, para encerrar, como diz uma música da banda O Rappa: “O novo já nasce velho”.


Inté!